Juventude e televisão: quando a inteligência está na cauda

Tempo de leitura: menos de 1 minuto

[O título faz referência ao livro “A Cauda Longa“]

(Nelson Hoineff)

A maior feira de conteúdo audiovisual do mundo, o Mipcom, ocorreu em Cannes de 8 a 11 deste outubro. Estavam lá 13 mil pessoas, inclusive cerca de 60 brasileiros, entre os quais donos e principais executivos de todas as grandes redes de televisão do país.

O Mipcom [ver também Mipcom Junior] é a principal ratificação universal do lixo em que se transformou a maior parte da produção televisiva em todo o mundo, seja aberta ou fechada. Mas é também a chance para que alguns dos seus maiores desafios sejam expostos de maneira clara. A forma como isso aconteceu, neste ano, foi um seminário que tratou do desenvolvimento de algumas tecnologias, mas principalmente sobre o comportamento dos jovens em relação a elas.

Os números são impressionantes, ainda que previsíveis. Na Europa e nos EUA, os adolescentes de até 17 anos já trocaram a televisão pelas muitas mídias que surgiram depois que eles nasceram. São os chamados digital natives, as meninas e os meninos que nasceram na época digital. Para eles, mobilidade e conectividade não são conquistas tecnológicas recentes: são parte natural do mundo, como os automóveis ou a Coca-Cola. Também para estes jovens, o peer, construção do conteúdo pelo usuário, tem uma ética mais forte do que os meios que emanam da radiodifusão. Cerca de 32% dessa turma confia plenamente no que está sendo postado por outra pessoa, individualmente – tanto em blogs quanto em sites de compartilhamento. Sejam indicações culturais, informações objetivas ou relatos de experiências. A confiança no que está sendo dito pela mídia é bem menor.

Uma dramaturgia primária
Um reflexo disso está na doença terminal que acomete a idéia do “sucesso”, tal como o conhecemos hoje. Nos EUA, em 1970, havia 180 programas de televisão que atingiam mais de 10 milhões de espectadores; hoje, esses programas não passam de 14. O “sucesso” tornou-se mais associado ao alcance global.

O mundo do conteúdo televisivo dividiu-se em três partes, análogas a um animal estranho: a “cabeça”, onde estão os programas das principais redes de televisão; a fat belly, barriga gorda, onde estão as emissoras menores porém massivas, como as principais redes de TV por assinatura; e a long tail, cauda longa, que é estreita e infinita e que abriga todo o demais conteúdo.

O que está derrubando o interesse dos jovens pela televisão é que a inteligência do meio não está na cabeça, mas na cauda. O cérebro dos grandes produtores e exibidores está produzindo variações pioradas do que é feito há 50 anos. Essas pérolas podem ter sido mostradas com o luxo habitual em Cannes, mas para os jovens tudo isso parece saído de outro planeta.

O cardápio da televisão é elaborado por empresários corporativos, que demoraram bastante para entender a mudança da lógica dos seus modelos de negócio, no que diz respeito ao conteúdo. Acreditam que esse modelo se baseia na difusão ampla do que chamam de “produtos”. Que cardápio televisivo são capazes de criar? Infinitos game-shows que mudam apenas os seus cenários, necessariamente kitsch; reality-shows às centenas, que se clonam sem parar; comédias estúpidas que só parecem divertir quem já foi devidamente descerebrado pela própria TV; novelas e séries que definitivamente só podem ser feitos para sugerir que a televisão é o espaço natural para a construção de uma dramaturgia constrangedoramente primária.

Um exemplo da miopia
Não é de estranhar que os mais novos tenham desligado a televisão e se conectado a um mundo mais real. O planeta Terra, pelo menos, tornou-se móvel e portátil, portanto individualizado. Tal coisa só não foi percebida dentro das emissoras de televisão. O surgimento das novas plataformas não foi entendido como o sinal para a construção de novos conteúdos, mas como uma oportunidade para a diversificação dos meios de distribuição do conteúdo que já vinha sendo produzido. O principal executivo da Joost, Mike Volpi, reconheceu ser refém desse processo e disse acreditar levar dois anos para mudar a relação. Até o Joost acha que só chega à cauda longa se passar pela cabeça que não pensa.

Isso revela uma notável falta de sensibilidade, mas sobretudo uma postura autofágica. Em primeiro lugar porque novos meios precisam de novos conteúdos e vão estar irremediavelmente exigindo isso. Depois, porque há uma geração que se acostumou a ser tratada como gente pela mídia onde estão os seus iguais, como qualquer rede de conteúdo gerado pelo usuário. Um bom exemplo dessa miopia está na mostra de conteúdos para celular que também aconteceu durante o Mipcom. Este ano, ela contou com a presença de megaprodutores de conteúdo televisivo, como a Endemol e a BBC. O conteúdo tornou-se caro e reproduz cada vez mais o que é produzido para a TV. Não é difícil prever quem vai perder esse jogo.

Ser respeitado, para respeitar
Os digital natives escrevem muito e falam pouco. Mais de 53% da sua comunicação é textual. Quando eles falam, não o estão fazendo como os seus pais – e nem mesmo seus irmãos mais velhos – o faziam. Em 2000, 75% das mensagens de voz eram passadas através de telefones fixos. Hoje essa margem está em 26%, e caindo.

Ainda que por meios inesperados, desde 1968 nenhuma geração foi tão crítica em relação à mídia que se desenvolve em torno dela. A televisão – pelo menos a televisão tal como a conhecemos hoje – perdeu toda essa gente e não vai recuperá-la. Nada poderia ter sido melhor para a própria TV. Dentro de dez anos, não mais do que isso, os estudantes estarão rindo da televisão de hoje, como às vezes costumamos rir de velhos anúncios que nos soam primários.

A televisão falsa, massificada, fundamentada na crença de que audiência é gado, será matéria de estudo pouco honroso para o meio que hoje tem a certeza que a fórmula do sucesso é nivelar tudo por baixo e reduzir ao mínimo o nível de exigência de quem está pagando a sua conta.

Os responsáveis por isso serão os jovens que têm hoje, na mídia que consomem, uma interlocução horizontal. Dezenas de milhares de produtores e radiodifusores mostraram com estardalhaço, na grande feira de televisão deste ano, que a televisão que eles estão pensando já foi para outro lugar. A garotada pode não saber escrever muito bem, mas acaba de sinalizar que, para poder respeitar, tem que ser respeitada.

Fonte: Observatório da Impresa – 17.10.2007

Comments

comments

Comments

comments