A Erotização da Infância

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(Arnaldo Rabelo)

É claro que relacionar sexualidade e infância nos causa repulsa, mas o tema polêmico já foi tratado há mais de cem anos por Freud, no campo da nascente psicologia. Mas é bom lembrar que na criança a sexualidade não é focada no genital, mas é a própria descoberta corporal e suas conseqüências no desenvolvimento psicológico.

Segundo Freud, o desenvolvimento psicológico e emocional da criança é caracterizado por fases em que ela volta sua atenção e sua libido (energia sexual) a determinadas áreas do seu corpo. Assim, na fase oral a criança obtém prazer sugando o seio da mãe, sugando o dedo e levando objetos à boca. Nesta fase a mãe é vista pela criança como uma extensão sua e não como um outro ser. Na fase anal a criança aprende a controlar a eliminação das fezes, podendo dispensar as fraldas. É uma fase de busca de independência dos pais e maior controle. Depois, na fase fálica, a criança entende que a mãe tem um outro objeto de desejo, o pai. É nesta fase que se estabelece o Complexo de Édipo. O órgão genital começa a ser um objeto de maior interesse e estimulação. Aqui aumenta a identidade de gênero. Quando começa-se a resolver o Complexo de Édipo, a criança entra na fase de latência, que vai até a puberdade. Há uma aquietação dos interesses sexuais e a criança se volta mais ao aumento da habilidade em lidar com o mundo e com as coisas e pessoas ao seu redor. O estágio genital é o próximo, acontecendo no início da puberdade. Neste período a pessoa busca a separação final da dependência e do vínculo com os pais, aceitando um conjunto de papéis adultos.

Segundo Reich, haveria uma fase antes todas essas: a visual. Está relacionada aos primeiros contatos que o bebê tem com o mundo em busca de satisfação, contato e orientação. O controle do movimento dos olhos é uma das primeiras manifestações motoras da criança.

Hoje a preocupação que existe – legítima – é com a antecipação dessas fases e o excessivo culto ao corpo. Como já vi muitas vezes, fugindo à responsabilidade que cabe também aos pais e às escolas, se culpa a comunicação e a mídia pelo fenômeno da erotização das crianças. Exemplos não faltam: Xuxa, Carla Perez, Tiazinha, Feiticeira e outras que se tornaram, mesmo que não intencionalmente, musas infantis com apelo erótico.

A estimulação para a sexualidade antes da época em que as pessoas estão preparadas física e psicologicamente para isso pode levar a sérios problemas: antecipação da menstruação, gravidez precoce, doenças sexualmente transmissíveis, depressão, distúrbios alimentares, desempenho escolar prejudicado, entre outros. Outra conseqüência é nos adultos, o aumento da pedofilia.

Mas até que ponto a mídia e a publicidade não estão apenas refletindo os valores da nossa sociedade atual?

Além disso, o conceito de infância muda conforme a época. Provavelmente está na hora de revermos como deverá ser a criança de hoje. Até que ponto é possível proteger as crianças do acesso às “informações dos adultos”? Não seria melhor prepará-las e educá-las a respeito da sexualidade? Até que ponto criamos um tabu, onde o assunto sexo é proibido para crianças? A sexualidade, entendida de forma mais ampla, não deveria ser encarada com mais naturalidade? A verdade é que encaramos esse assunto com muita hipocrisia e, tanto na escola quanto em casa, ele não é tratado com clareza.

É claro que não estou defendendo a erotização precoce ou a exposição da criança a estímulos sexuais, mas defendo a conscientização de adultos e crianças – cada um de forma apropriada – para a sexualidade/afetividade, incluindo valores, regras e limites. Essa conscientização deve incluir as empresas, sejam de mídia ou não, pois todas têm uma forma de expressão. O agente conscientizador será forçosamente a nossa sociedade.

Ficam estas questões para refletirmos.

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