Crianças são decisivas no consumo da famílias

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Depois dos restaurantes, o que mais atrai brasileiros quando decidem
abrir seu próprio negócio é o ramo de confecções e vestuário, revelam
pesquisas do Sebrae. Mas entrar para o concorrido mercado das agulhas,
linhas e tecidos requer mais do que vontade. Ainda mais se o empresário
tiver grandes planos para introduzir uma nova marca nos maiores
mercados. Só no Estado de São Paulo, estão sediadas 6.500 empresas do
segmento de confecção, mostra o levantamento da Associação Brasileira
da Indústria Têxtil (Abit) de 2006. No período, foram movimentados US$
7,25 bilhões nessa cadeia, informa O Estado de São Paulo.

Disposta a brigar por uma fatia desse mercado, Juliana Páffaro
lançou a Pistache & Banana em 2005, com investimento próprio de R$
500 mil. Segundo a empresária, ainda em 2004, quando fazia MBA em
design na Inglaterra, observou no Reino Unido que roupas infantis
produzidas com matéria-prima orgânica despertavam o interesse daqueles
consumidores. E mais: não havia fornecedores brasileiros. Ao voltar ao
País, iniciou estudos para viabilizar a sua marca. Foi atrás de
fornecedores que produzissem algodão orgânico e chegou a uma
cooperativa em Guaricê (PR). Parceria firmada, bateu à porta das
tecelagens, só uma topou fazer. Primeira linha pronta, contratou
representantes para visitar lojas multimarcas e participou de feiras no
setor. ”No plano, eu previa começar primeiro pelo Brasil, mas logo
recebi convites para exportar”, diz. França, Itália, Canadá, África do
Sul estiveram entre as primeiras operações, todas pontuais.

Agora, Juliana faz os últimos preparativos para inaugurar a
primeira loja da marca em outubro próximo, na Vila Madalena, zona oeste
de São Paulo. O ponto, que recebeu investimento de R$ 100 mil, servirá
de piloto para seu plano de franquias, orientado principalmente para
atender clientes estrangeiros. ”Com o know-how do varejo, que ainda
não tenho, vou poder replicar o modelo para fora”, diz. A previsão é
estrear no franchising em julho do próximo ano. Ela não descarta,
porém, atender o mercado internacional com revendedores. ”Já invisto
no processo de certificação dos produtos para qualificar a marca e
garantir o reconhecimento no mercado externo. Por aqui, as vendas vão
bem, mas as pessoas ainda não escolhem por causa da matéria-prima.
Gostam das estampas, qualidade”, conta Juliana, que mantém uma fábrica
em Santa Bárbara do Oeste (SP), dividida com outra empresa com que não
concorre.

Roupas de praia

A moda infantil também atraiu Hamilton
Barreiros e Ruy Lourenço, vindos do mercado financeiro e, depois,
consultores empresariais. Foi atendendo a clientes que os dois
perceberam o avanço do mercado infantil. Em 2000 abriram a Yellow Bug.
Diferentemente da maioria dos pequenos, com limitados orçamentos, já de
início pensaram em construir um negócio potente. Injetaram recursos
próprios de US$ 2 milhões, aplicados em pesquisa mercadológica, estudos
de viabilidade, máquinas, equipamentos, instalações, parque de TI e
software. Contrataram 50 funcionários e instalaram uma fábrica em
Mirassol (SP). ”Lançamos a marca em um ano bom para o varejo, o que
fez despontar nossa marca, principalmente em São Paulo”, explica a
gerente de marketing da empresa, Luciana Vitorino.

Com os negócios deslanchando, em 2003, Ruy e Hamilton lançaram
outra marca, de moda praia para os pequenos, a Yellow Beach (desde
bebês até o tamanho 18). Em 2004, partiu para um vôo internacional, por
indicação de um fornecedor. ”Nossa estratégia era exportar somente no
final do quinto ano, mas antecipamos por conta de uma oportunidade”.
Para isso, se aliaram a um comprador da Inglaterra, lançando a
SugarLoaf em alusão ao cartão-postal do Rio, o Pão de Açúcar. O
atrativo, conforme a empresa, foi o colorido das estampas, além do
trabalho manual de bordado – 50 mil peças foram embarcadas nessa
primeira experiência.

Em 2005, a Yellow Beach desembarcou nos Estados Unidos com mais
uma marca, a Lil´Bettie Beachwear (correspondente à Yellow Beach). ”A
aceitação incentivou a criação de outras duas grifes dos sócios – a
masculina Hamilton e a feminina Lily Rio. Para esse mercado, há alguns
produtos específicos que não são bem aceitos por brasileiros, como as
camisetas de lycra para os meninos”, explica Lourenço. O famoso
magazine Barneys é um dos que vendem as linhas do grupo, que fechou
2007 com R$ 20 milhões de faturamento, 160 funcionários e estimativas
positivas para este ano: projetam 20% de incremento no faturamento.

Para as filhas

A moda infantil começa a despertar
interesse até mesmo dentro de grifes voltadas ao público adulto. Em
Pernambuco, a Madame Surtô, com foco nas mulheres de classe média alta,
decidiu investir também numa linha exclusiva para as filhas das
consumidoras. Lançou no inverno do ano passado a Madame Surtôzinha,
conta a proprietária Tatiane Asfora, hoje distribuída por meio de
revendedores em outros Estados brasileiros. ”Vimos como oportunidade
de negócio levar um produto diferenciado, que acompanha a mesma moda
das mães, fugindo dos decotes, saias muito curtas, que consideramos
inadequados para meninas”, diz. Já nas duas coleções lançadas, a
Surtôzinha responde por 15% do faturamento da grife. ”A moda infantil
tem potencial de crescer ainda mais, porém a experiência é nova e
esperamos o tempo de maturação para estabelecer uma estratégia”,
comenta. Na primeira coleção, foram lançadas 400 peças. Na segunda
(primavera-verão), foram 500 itens.

Pesquisa da britânica TNS revelou que as crianças da América
Latina representam um importante mercado consumidor, em ascensão, até
por terem grande poder de decisão nas compras das famílias. Karina
Milaré, diretora de planejamento do instituto de pesquisas, diz que
entre as mães brasileiras a influência das crianças sobre as compras é
mais marcante que nos outros cinco países pesquisados – aqui, 71% se
revelaram dispostas a sacrificar o bolso para atender às expectativas
dos filhos
. Na, Argentina, Chile, Guatemala e México, o índice é de
66%. ”A nova configuração das famílias e o ingresso da mulher no
mercado de trabalho são fatores que alimentam ainda mais o poder da
criança”, ressalta. Karina acrescenta que ainda é cedo para falar dos
impactos que os países, como o Brasil, poderão ter com a queda de
natalidade. ”É difícil avaliar esse efeito, mas neste momento, o que
influi sobre o mercado em diversos ramos de atividades é o crescimento
da classe média, movimentando diretamente o consumo infantil
”, diz.

Marcos Campomar, professor de Marketing da Faculdade de
Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da Universidade de São
Paulo, avalia que, mesmo diante dessa redução nos nascimentos, novas
variáveis podem mudar esse ambiente, e fomentar o consumo entre os
pequenos. ”Tivemos agora a aprovação da lei que garante
licença-maternidade por seis meses, o que poderá influenciar na decisão
de mais mulheres engravidarem”, cita. Para Campomar, muitos mercados
ainda negligenciam os pequenos. ”Hoje, as crianças participam
ativamente da vida familiar, ajudando a decidir muitos momentos”.

Atenta a essas mudanças, a Yellow Bug busca opções para não
depender exclusivamente de crianças muito novas. Ao ver que parte do
seu público começa a crescer, criou no ano passado uma terceira
etiqueta: a After, de moda teen, somente para meninas. ”São roupas
parecidas com as de mulheres jovens, mas feitas especialmente para a
menina de 12 anos, mini-teen”, diz Vitorino.

Fonte: PEGN – 24/09/08

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